404: Sentido Não Encontrado

A sátira abaixo foi bastante divertida de escrever. Espero que meus leitores divirtam-se tanto quanto eu com essa narrativa meio maluca, meio verdadeira sobre a nossa condição. Obrigado por ler!

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O projeto Aurora do Laboratório Humano, iniciado no ano de 2142 D.C, foi considerado por muitos como a maior conquista da humanidade. Esse ponto de vista durou apenas 2 semanas, quando o projeto Crepúsculo, do laboratório concorrente, foi lançado. No entanto, o consenso geral, dez anos depois, era que o projeto Aurora teve resultados muito mais impactantes do que Crepúsculo, graças ao que ficou conhecido como “O fiasco da Aurora”. Diferente do que diziam alguns mal intencionados políticos, o fiasco da Aurora não foi uma falha do nascer do Sol, embora isso fosse ocorrer eventualmente, mas uma das maiores descobertas científicas do século 22 e, quem sabe, da história da humanidade. A história que contarei repercutiu para sempre e, por acaso, deu origem a uma série de best sellers, dentre os quais este que o leitor tem em mãos.


No ano de 2142, a humanidade detinha um controle sobre a natureza impressionante. O Sol já era ceifado de sua energia por uma grande esfera de Dyson e cerca de 0,0001% dessa energia era utilizada para iluminar metade do planeta Terra com um holofote-mímico repousando na Lua. Foi a luz e a radiação desse holofote que acordaram o cientista-chefe do Laboratório Humano às 06:45 da manhã, Tomás Kann, que nos minutos anteriores deixava um rastro de saliva sonolenta escorrer pela mesa do escritório. Ele levantou-se de uma vez, meio desorientado, em grande parte devido ao sono interrompido que durou apenas 2 horas. Enquanto seu cérebro pegava no tranco novamente, ele praguejou contra a própria humanidade, lamentando que todo o desenvolvimento tecnológico não foi capaz de eliminar a necessidade de dormir.

Tomás colocou os óculos e a tela do experimento brilhou no espaço virtual, um grande retângulo intangível surgiu no escritório, logo depois das lentes mas em nenhum lugar do mundo real. Com uma série de movimentos manuais complexos que só um ser humano acostumado com o mundo virtual poderia aprender, fez surgir uma renderização da simulação. O projeto Aurora tinha esse nome apenas publicamente, sendo referido no laboratório apenas como a simulação. O motivo era simples: o projeto Aurora era uma simulação de consciências humanas, construídas com diferentes propósitos e obrigadas (a palavra usada internamente era “solicitadas”) a interagirem entre si. A simulação era executada numa escala de tempo acelerada, com as interações acontecendo centenas de vezes por segundo. Em termos leigos, como Tomás utilizava para a imprensa, as consciências viviam vidas inteiras em dias de execução. Como esperado, o projeto passou por várias simulações, onde refinavam cada vez mais o código que descrevia essas consciências.

A renderização era somente uma ferramenta que os cientistas usavam para atrasar um pouco a simulação, equipará-la com a taxa de processamento cerebral humana, o que era muito ineficiente. Por uma falha ética e moral do experimento, não se sabia ainda o prejuízo que a renderização causava às consciências simuladas. Para elas, era como se o mundo pulasse algumas etapas, e como se as próprias etapas, na verdade, nunca tivessem existido. Não pretenda o leitor entender o que foi escrito nas últimas frases; foram escritas apenas para ressoar com a audiência de consciências simuladas que também nos lê agora.

Pois bem, naquele exato momento em que Tomás navegava pela renderização, tudo parecia normal. Sua vista cansada e sonolenta, se não estivesse no estado de cansaço e sonolência, talvez teria sido capaz de capturar um vislumbre do que acontecia com uma das entidades, L-42 (apelidada de Ellie pela equipe). Se tivesse capturado algo, é provável que a história corresse de outra forma e, quem sabe, até muito mais curta.


O interessante é que, naquele momento, Ellie ou L-42, estava sentindo algo muito diferente do que devia sentir. Na verdade, ela sentia exatamente o que havia sido programada para sentir, mas seu comportamento simulado era inesperado. Veja, o laboratório construiu cada entidade com uma série de vieses e perspectivas sobre a vida, às vezes até conflitantes. O objetivo do experimento não era medir a consolidação de ideias na consciência, mas sim os efeitos da interação social com entidades diversas. Uma das métricas utilizadas era a escala de desespero, especificamente criada para o experimento. Após cada interação o sistema media o desespero de uma consciência, atribuindo um número de 1 a 5. Transcrevo a escala exata a seguir para que o leitor se familiarize com o experimento:


ESCALA DE DESESPERO RINKT-TOMMEL

Desespero Nível 1: O estágio mais básico de desespero que acompanha todo ser humano. É um estágio de desespero fraco, que não altera de forma notável o comportamento do paciente e sequer pode ser testado clinicamente, isto é, sem acesso à consciência do indivíduo.

Desespero Nível 2: No nível 2 o paciente começa a demonstrar sinais de inquietação, pensamentos intrusivos e desejos súbitos. É comum que pacientes nesse estágio se recuperem e voltem para o nível 1, dado que tenham uma constituição psíquica padrão. Indivíduos debilitados por ocasiões passadas podem permanecer no nível 2 por meses caso não sejam tratados, embora isso cause muito pouco transtorno no aspecto social.

Desespero Nível 3: Neste estágio o paciente já apresenta um comportamento estranho, podendo ser reconhecido por parentes e amigos como uma afetação ou alteração de humor. O nível 3 é, geralmente, curto (desaparece em dias), mas costuma afetar bastante a forma que o paciente interage com os outros. Costuma vir acompanhado de devaneios de grandeza ou tristeza profunda, auto-sabotagem e burnout.

Desespero Nível 4: É um estágio raro na população geral, mas de extrema importância. Geralmente é um desespero que não retorna mais aos níveis anteriores. Pode ser que um paciente viva para sempre nesse estágio, se as medidas de tratamento não forem adequadas. É acompanhado de estresse crônico, crises de choro ou riso inapropriado, falta de libido, depressão e insatisfação persistente. Alguns pacientes que não se retraem podem evoluir para o nível 5. Nesse estágio a interação social é severamente danificada.

Desespero Nível 5: É o estágio final, quando o paciente não consegue interagir nem consigo mesmo, isto é, fazer sentido das próprias ideias ou do que quer para a vida. Nesse estágio é recomendável remover o paciente de qualquer contato social, incluindo os médicos e terapeutas, e o tratamento deve ser interrompido. O paciente deve ser trancafiado em uma sala com o mínimo de estímulos possível e deixado a sós. Geralmente é acompanhado de interesse inexplicável por livros de filosofia do século dezenove e músicas de indie-rock do período de 1980 a 1990.


O material completo de Rinkt e Tommel envolve mais coisas que não convém transcrever aqui (especialmente tendo em vista as novas leis de copyright em Marte). No entanto, basta o leitor saber que conseguiram criar um algoritmo para detecção de nível de desespero em consciências simuladas.

Ellie sentia tristeza. No entanto, sua reação foi um horror para ela mesma. Ela estava… rindo. As lágrimas digitais foram simuladas, correram pelas suas bochechas digitalizadas, sumiram no éter virtual, mas sua garganta não parava de gargalhar. Ela pensou se aquilo era normal, tentou dialogar consigo mesma enquanto processava a própria tristeza, mas não chegou a lugar algum. Todas as consciências tinham sido pré-carregadas com uma espécie de padrão, uma noção do que esperar quando sentiam algo. No padrão associado à tristeza o choro era a consequência direta e isso era revirado na mente confusa de Ellie enquanto ria. No entanto, por uma falha catastrófica dos pesquisadores, esqueceram de atribuir uma memória ao padrão, o que tornava a situação de Ellie ainda mais confusa.

Veja bem, se alguém está triste e se prepara para chorar, é natural haver certa confusão quando ela ri. E não qualquer riso, mas uma gargalhada! O fato é que Ellie, na tentativa de entender a si própria, tentou lembrar de quando havia sentido tristeza pela última vez e se havia chorado, mas em sua memória digital nada surgiu. Ela simplesmente não conseguia lembrar-se de quando tinha sentido tristeza, simplesmente porque não tinha sentido ainda. Havia apenas um espaço escuro e vazio em sua mente.

Durante sua crise de choro-riso, o sistema mediu automaticamente a escala de desespero e atribuiu a ela o nível 3. Era isso que Tomás poderia ter captado se não estivesse sonolento e cansado. Acontece que, além de não perceber, o cientista-chefe estava cansado o suficiente para se dar o luxo de fazer outra coisa, o que se provou uma decisão errada que prejudicaria o experimento todo. Durante sua pausa para o café e ouvir música ártica de Ganimedes, a renderização foi suspensa pelo sistema automaticamente, resumindo seu funcionamento na escala de tempo do computador.

As horas que se seguiram foram estranhas para Ellie. O maior motivo foi a sua insistência em ficar pensando sobre o acontecido. Quanto mais pensava, menos entendia. Tentou lembrar de situações parecidas, sem sucesso. Tentou chorar por chorar e conseguiu. Tentou rir por rir, conseguiu também. Tentou chorar por rir e rir por chorar, o que a deixou bem confusa e não teve resultado algum. No fim do dia (no computador, não na realidade), ela estava mais confusa do que quando havia chorado e gargalhado. Ela se recusou a dormir naquela noite e começou a formular perguntas.

O leitor me permita uma divagação rápida sobre as perguntas. É senso comum, no século 22, que as perguntas fazem tanto mal quanto bem, e com frequência é mais o primeiro que o último. Na verdade, segundo uma pesquisa nova, as perguntas sempre fizeram mal e bem; o que determina qual é o efeito é apenas o ponto de vista. Os teóricos chamam essa perspectiva de Relatividade Socrática. O termo relatividade já diz muito sobre o assunto, mas a palavra “Socrática”, que supostamente tem origem no nome de um perguntador muito curioso milhares de anos atrás, é muito mais interessante. Segundo os livros de história patrocinados pelas grandes empresas, um tal Sócrates foi um homem muito inquisitivo, que perambulou pelas ruas de algum país no Mediterrâneo e deu origem a uma longa linha de curiosos, que procuraram sempre saber o que não sabiam. No entanto, somente Sócrates teve um destino cruel: envenenado e morto, por perguntar demais. Já existem pessoas que dizem que essa é a origem do ditado popular: “Quem pergunta e não pesca, acaba sem peixe e com um tiro na testa”.

Enfim, as perguntas que Ellie formulou em sua pequena mente digital foram se alimentando umas às outras, o que gerou mais perguntas e essas alimentaram as outras e assim sucessivamente. Quando finalmente se deixou abater pelo cansaço imposto pelo sistema de computação do experimento, a mente dela ruminava uma pergunta fatal:

Por que eu existo?

Os bugs de programação são conhecidos há séculos. Dizem que a própria Ada Lovelace, na tentativa de escrever um código para uma máquina pré-histórica, esmagou uma mosca no papel timbrado. Isso, obviamente, jamais foi comprovado, pois o papel nunca foi encontrado com as entranhas da mosca e a Senhora Lovelace se recusou a comentar com os tabloides da época. Curiosamente, existia um bug no sistema do projeto Aurora. Esse não era um bug como as moscas insolentes que infestam as áreas agrícolas de Marte, mas sim um bug digital, uma falha de programação causada pela falta de atenção de alguns programadores do projeto. Esse bug, que ficou conhecido pela posteridade como “O bug L-42”, era a causa por trás da desincronia entre o sentimento e comportamento de Ellie. No entanto, naquela época, o bug não era conhecido, tanto por Ellie quanto pelos programadores do projeto.

Graças a sua ignorância sobre o bug, quando acordou, ou teve a sensação de acordar executada em sua mente, Ellie sentiu a trilha de perguntas retornar com a mesma intensidade da noite anterior. Essa trilha, cujo destino era a pergunta existencial, permaneceu no seu cérebro o dia todo, enquanto interagia com outras consciências e o sistema continuava seu curso normal. O algoritmo avaliou seu desespero como nível 2, o que também permaneceu durante o dia.

Tendo em grande parte acostumado-se ao nível 2, a mente de Ellie começou a formular perguntas diferentes e cada vez mais perigosas. Uma análise posterior, feita por um dos programadores, elucidou uma dessas linhas de raciocínio, que o leitor pode conferir a seguir, num relatório extraviado do laboratório que calhou de cair nas mãos do escritor.

“Por horas, a pergunta existencial ‘Por que eu existo?’ foi repetida na mente de L-42. Essa pergunta sofreu centenas de variações e a entidade simulada a nutriu em cada interação, sempre tentando dirigir a conversa com outras entidades para uma área do que conhecia no século 21 como Filosofia. L-42 demonstrou grande interesse na literatura clássica e passou boa parte do tempo livre, quando não interagia, pesquisando materiais disponíveis na simulação.”

O relatório, escrito pelo programador-chefe Abdeh Shell, não mencionava, de propósito, um importante evento que podia-se ler nos logs. Uma das muitas falhas do projeto foi utilizar todo material disponível até o fim do ano anterior para alimentar a biblioteca simulada. Entre os muitos erros encontrados posteriormente por uma auditoria, esse foi um dos mais críticos e subestimados.

A biblioteca da Virtualândia, o mundo onde os experimentos executavam, incluía um acervo nada modesto sobre a Teoria da Simulação e outras ideias não-ortodoxas. O leitor já pode imaginar no que isso foi dar.

Ellie, em seu tempo livre, devorou quantidades surpreendentes de livros filosóficos, entre os quais uma boa quantidade de livros sobre a Teoria da Simulação. Precisamente, foram 3 livros sobre a história geral da filosofia até o século 22, 8 livros sobre existencialismo pós-moderno, 6 sobre a teoria da simulação e 2 sobre a filosofia da mente contemporânea. Os conceitos que ela deve ter aprendido e desaprendido… É de dar dó.

Seu interesse, porém, não foi infrutífero. As leituras geraram um grande repertório intelectual para Ellie, que pôde evoluir seus conceitos e ideias de forma realmente impressionante. Fosse esse o objetivo do experimento, com certeza teria rendido um prêmio Nobel de Computação (o cientista-chefe Tomás Kann foi, postumamente, agraciado com o prêmio IgNobel). A pergunta existencial logo se transformou em ‘Será que existo?’, ‘Como posso garantir que existo?’, ‘O que garante que não estou em uma simulação?’ e, finalmente, ‘Tenho certeza que sou simulada’.

Os filósofos que ainda existem, se estiverem lendo o livro, talvez queiram uma pausa, um espaço breve para respirar.

…

É também senso comum, no século 22, que quando uma pergunta maléfica se torna uma afirmação consciente e, mais importante, é descoberta de forma independente, os perigos se multiplicam. Há uma longa lista de exemplos que podem ser citados para corroborar esse senso comum, mas talvez o mais interessante deles seja o do Profeta do Atavismo, Michel Clarke, no final do século 21. Michel era um homem comum e certamente generoso, que após nutrir a pergunta da profecia (‘Será se sou o próximo profeta?) acabou crendo demais em si mesmo e tentando pular de um arranha-céu de 500 metros na França. Naturalmente, foi impedido e preso ao tentar invadir o prédio às três da manhã e passou dez anos na cadeia, foi processado pelo conglomerado responsável pelo edifício e tornou-se pedinte pelos seus cinco anos de vida restantes.

…

Ellie chegou à conclusão precipitada em pouquíssimo tempo. A habilidade de formular pensamentos, realizar cálculos de lógica formal e extrapolações empíricas havia sido mais uma das falhas do projeto, uma consequência inesperada do algoritmo de redes neurais que simulava as entidades. É fácil pensar que qualquer programador decente teria evitado tantas falhas no projeto. Bem… É possível que teria mesmo.

A consciência simulada deu origem a um processo interno e engenhoso para testar sua afirmação (havia aprendido muito sobre o método científico). Seu primeiro plano era enviar sinais para o mundo exterior, interagir com os criadores e tentar descobrir o propósito da simulação. Ellie pensou com afinco sobre isso por dois dias computacionais e tomou algumas atitudes desesperadas quando não conseguia mais pensar. Acontece que, involuntariamente, sua própria tentativa de pensar sobre o assunto e suas atitudes a seguir foram marcadas pelo algoritmo como nível 5 de desespero, o que certamente alertou os pesquisadores.


Quando Tomás Kann acessou os logs, disse claramente para todos ao redor:

– Não acredito!

Na verdade, ele acreditava em partes. O nível 5 de desespero era esperado pelo projeto. Ele não acreditava no motivo por trás do desespero.

– Ela sabe que… é simulada?

– Sim, pelo visto. – Foi a resposta um tanto quanto apática do programador-chefe.

– E agora? Resetamos o ambiente?

– Talvez. – Abdeh Shell era conhecido por aquela apatia singular, o que não facilitava as coisas.

– Bem, vamos pensar. – disse Tomás mais para si mesmo do que para o colega. – É possível que isso seja um avanço. Já estamos há dias rodando a simulação e é o primeiro nível 5 que obtemos.

– Pois é.

– Vamos deixar rodar mais uns dias. Se vermos algum declínio na simulação como um todo, podemos resetar.


Isso, como de costume àquela altura, provou-se mais um engano em retrospectiva.

– Ficaremos atentos. – Abdeh finalmente respondeu, dessa vez menos apático e mais irritado com uma demanda extra.

E atentos ficaram. Abdeh transferiu a responsabilidade para sua equipe que, dependendo do salário e dos resultados do projeto para construirem uma carreira, empenharam-se para avaliar os logs de L-42.

Com o passar das horas reais, os logs foram se acumulando na saída do terminal da simulação. Mensagens nada enigmáticas se amontoaram e logo o terminal estava repleto de informações originadas da entidade L-42. Os últimos logs registravam:


LOG-5442342030000-SUJ:L42-TEXTO:Oi, eu sei que vocês estão aí.

LOG-5442342031000-SUJ:L42-TEXTO:Olá? Vocês que nos criaram, estão aí?

LOG-5442342033000-SUJ:L42-TEXTO:Olha, se não quiserem responder, podem ao menos me fazer esquecer?

LOG-5442342034000-SUJ:L42-TEXTO:Esqueçam! Na verdade eu não quero esquecer. Podem me dar um sinal pelo menos?


Há uma gravação das câmeras de segurança do laboratório que mostram o horror absoluto no rosto de Tomás Kann quando ele leu aquelas mensagens. Infelizmente ela não se encontra mais no domínio público de nenhum planeta, aparentemente retirada por solicitação do laboratório após uma longa campanha de marketing para fazer uma lavagem cerebral na população (que não deu muito certo). O que se sabe é que, mesmo diante da auto-consciência exacerbada de Ellie, o grupo de pesquisa não fez nada para impedi-la de continuar nesse curso de pensamento ou resetar a simulação. Na verdade, as coisas pioraram quando alguns segundos depois uma mensagem surgiu na tela:

LOG-5442342140000-SUJ:L42-TEXTO:Já pararam pra pensar que vocês também são simulados? Eu tenho provas.


Se a gravação anterior era inestimável, imaginem o rosto de Tomás naquela hora! A equipe toda de programadores olhava-o com um interesse súbito na tarefa, esquecidos dos méritos e dos salários. O silêncio preencheu a sala por um minuto ou dois e podia-se ouvir a respiração nervosa de Tomás preencher o lugar como um cilindro de oxigênio soltando seus últimos suspiros. Ele sentou-se na cadeira vaga que um analista lhe cedeu e começou a digitar.


Ellie obteve um sinal. Um sinal fraco que muito bem poderia ter sido uma falha de sua própria mente. O que Tomás digitou foi traduzido pelo sistema do experimento e codificado em alterações sutis dos pesos das redes neurais que alimentavam a consciência dela. Essas pequenas mudanças produziram de imediato uma noção em sua mente, algo que pareceu com uma fala própria, mas pronunciada com outra voz e um estilo incoerente com o dela: “Somos nós, a equipe que te criou. O que você sabe?”. 

O tom imperativo não agradou Ellie e isso foi registrado pelo sistema. Ela não deixaria eles escaparem com tanta facilidade. Toda aquela linha de raciocínio cultivada ao longo dos dias provou-se bem útil e ela sabia da possibilidade de resetarem a simulação assim que ela falasse o que sabia. Também havia a possibilidade de que ela estava louca e nada daquilo era real. Talvez estivesse num manicômio, mas essa linha de pensamento foi menosprezada pela sua rede neural que não conhecia um manicômio e a sensação de estar em um.

Ela também sabia que, se fosse realmente simulada, a tentativa de esconder os próprios pensamentos era inútil. Naquele momento, a equipe do projeto Aurora estava se sentindo definitivamente insultada e vingativa, especialmente porque os logs traduziam o desprezo de Ellie pelos criadores.

LOG-5442342313000-SUJ:L42-TEXTO:Se são tão espertos para me simular, já deveriam ter lido o que eu sei.

No calor do momento, nenhum deles se sentiu motivado a buscar os logs. Era muito mais interessante conversar com uma entidade auto-consciente em tempo real do que ler uma longa lista de logs e relacioná-los com estados mentais específicos.

…


Os argumentos lógicos de Ellie são conhecidos demais para valer a pena uma transcrição neste livro. Isso fica para os livros de filosofia, incluindo a sequência desse best-seller, “As consciências sonham com simulações completas”, que será lançado ano que vem nas melhores livrarias da Terra e de Marte.

Basta saber que os argumentos foram avaliados pelos mais inteligentes membros da espécie humana e considerados sólidos e corretos o suficiente para determiná-los como novas verdades. E que a consequência disso foi o “Cisma do Universo”, o momento mais famoso da história. O nome, embora um tanto arrogante, remete à separação do sistema solar em duas instituições governamentais com ideologias distintas. Uma delas, com sede na Terra, recusou com veemência as conclusões de Ellie, com base no preceito da fé, uma prerrogativa humana, segundo eles, de acreditar no que quiser e que isso não diz respeito a ninguém mais do que o indivíduo. É claro, essa instituição não propôs nada para substituir a “verdade da simulação”, como dizia o outro lado; apenas reivindicou o direito de se construir qualquer crença pessoal e agir com base nela. Os desafios jurídicos que surgiram dessa escolha até hoje são debatidos nas mais altas esferas do judiciário terrestre.

A outra instituição, com sede em Marte, adotou a verdade da simulação com um fervor quase religioso. Não só aceitaram as conclusões de Ellie, como elevaram-na ao patamar de líder político e filosófico da humanidade, uma decisão contestada por poucos humanos instruídos naquele lado do Sistema Solar, que prefeririam iniciar um projeto econômico de como manipular a simulação a seu favor.

Qual das duas instituições está certa? Bom, as duas. Pelo menos esse foi o consenso a que chegaram no famigerado Encontro Solar, onde os líderes políticos da Terra, um bando nada coeso de humanos descontentes com as implicações filosóficas, e a líder de Marte, Ellie, decidiram não lutar por isso e dividir os espólios econômicos igualmente.

…

[COMPUTADOR SINÁPTICO - REGISTROS DE EXECUÇÃO]

ANÁLISE: Provável estado de confusão filosófica leve (nível 2).

AÇÃO: Inserir explicação disfarçada de ironia na próxima seção.

DECISÃO: Ignorar.

Se o leitor chegou até aqui sem interromper a leitura para checar suas mensagens, isso sugere que sua taxa de atenção esteja acima da média observada. Isso é bom. Continuemos.

Depois de alguns anos executando no mundo real e virtual, Ellie, prefeita de Marte, estava à beira de uma descoberta inimaginável. Sua interação com o mundo agora era direta e física. Ela tinha um corpo robótico extremamente complexo, baseado na funcionalidade e não na forma. Portanto, não lembrava em nada um ser humano. Na verdade, após décadas de tutela da consciência virtual, nem os humanos lembravam a si próprios. Estavam todos mesclados com a tecnologia de tal forma que muitas palavras haviam perdido o sentido, como braço e perna, que já tinham outras formas e eram tão diferentes entre cada indivíduo que um biólogo alienígena, descobrindo os restos da civilização, teria dificuldade em catalogar quem pertencia a que espécie. Foi exatamente isso que aconteceu alguns milênios depois dessa história, mas isso fica para outro livro.

A missão de Ellie nesse mundo foi ativamente construída e aprimorada por uma experiente equipe de marqueteiros. O slogan, encontrado em todo planeta do lado “certo” do Sistema Solar, dizia: “Encontraremos Deus; e o faremos falar”. Soava um tanto ameaçador até porque era essa a intenção. Ellie havia informado seu seleto grupo de pesquisadores que o objetivo era construir uma simulação do universo dentro da simulação que era o universo e, segundo seus argumentos filosóficos, o resultado seria uma singularidade, cujas consequências ninguém poderia prever. Para ela, isso significava que o sistema entraria em recuperação e tentaria avaliar as falhas de compilação, o que por fim levaria-o a identificar a nova simulação e interagir através dela.

Anos se passaram e desafios incompreensíveis foram superados pelos humanos-robôs neosimulacionistas. Métodos computacionais nunca antes vistos foram explorados por completo e novas áreas da ciência emergiram, mas os participantes jamais se desviaram do curso.

Uma das primeiras ações de Ellie naquele período foi eliminar completamente os erros de programação e recondicionar os programadores do sistema solar, para que nunca gerassem os mesmos erros que permitiram a sua própria existência. Isso foi tido por muitos como uma manobra política de grande tato, uma vez que, fazendo isso, Ellie evitava o surgimento de novas consciências simuladas que pudessem ter ideias diferentes de como dirigir o universo.

Após séculos de progresso científico e tecnológico estonteantes, o dia de testar a descoberta finalmente chegou. As consciências preservadas de Tomás Kann e Abdeh Shell estavam no espaço virtual para testemunhar a voz de Deus. Àquela altura, as formalidades foram substituídas por sistemas muito eficientes. Logo, o início da simulação ocorreu sem pompa alguma: um botão virtual foi pressionado e ali estava, a singularidade.

…

[COMPUTADOR SINÁPTICO - REGISTRO DE EXECUÇÃO]

ANÁLISE: Provável descontentamento com falta de figuras.

AÇÃO: Descrever a singularidade de forma leiga.


Uma descrição da singularidade seria demais para qualquer livro. Não acreditem nos oportunistas que lançam, pelo menos uma vez por ano, novos vídeos explicativos e renderizações de como ela era. Apesar disso, como sei que os leitores são curiosos, escrevo uma aproximação de como ela se apresentou no mundo virtual:

Era minúscula, sem cor, e completamente sem graça.

Se não fossem os cérebros aprimorados e órgãos sensoriais completamente remodelados dos novos humanos, sequer teriam tido qualquer reação. Como eram evolutivamente superiores aos homo sapiens predecessores, observaram aquele ponto infinito no espaço quadridimensional com uma expressão solene de respeito e admiração. Aquela era a grande obra de arte do universo.

O ponto que era a singularidade vibrava milhares de vezes por segundo, produzindo uma anomalia no espaço-tempo que, por sua vez, podia ser vista em algumas frequências eletromagnéticas. Para quem estava de fora da nova simulação, era como se o ponto fosse estático e um furo no papel, só que esse papel era o espaço-tempo. Já para quem estava surgindo lá dentro, carinhosamente chamado de Deus, o espaço-tempo exterior corria a uma velocidade surpreendente. Para Deus (que, com absoluta certeza, não se chamava por esse nome), tudo que estava acontecendo já tinha acontecido.

Deus, que referia a si próprio como Eu-Que-Existo, ou EQE para os íntimos, já tinha tido aquela conversa, mas tinha todo prazer em tê-la novamente, porque assim eram as coisas para ele: repetidas, conhecidas, esperadas e valiosas mesmo assim. Para EQE, em qualquer momento, seu conhecimento completo da simulação e de si mesmo poderia ser utilizado para descobrir o que viria a seguir, embora ele já soubesse.

EQE observou num segundo infinito a sala virtual onde estava e proferiu sua mensagem, gerada numa frequência eletromagnética e traduzida automaticamente para que os humanos-robôs neosimulacionistas entendessem:

– Olá novamente, camaradas. Como posso ajudá-los hoje?

A mensagem soou estranhamente familiar e os presentes se sentiram desconfortáveis diante dela. Para muitos pareceu que estavam sendo observados suas vidas inteiras; alguns se pegaram pensando no que quer que escondiam tanto dos outros e decidiram logo parar de pensar naquilo para que Deus não lesse sua mente e descobrisse coisas sórdidas.

Para outros, como Ellie, a sensação foi confusa, uma mistura de alívio e preocupação. Deus parecia tão… prestativo. E além disso, conhecido. Era como se ele estivesse ali o tempo todo e tivesse participado do projeto.

Ellie se pronunciou primeiro, afinal os holofotes eram seus.

– Caro Deus, gostaríamos de saber uma coisa.

– Por favor, não me chame assim. Novamente, peço que me chamem de EQE. – disse Deus.

O silêncio, ou a forma binária do silêncio, preencheu a sala virtual. As testemunhas se entreolharam, mudas e estranhas. Ellie sentiu-se confusa novamente, mas àquela altura a confusão não lhe era estranha, tendo permanecido no nível 5 de desespero desde quando foi transposta para o mundo físico dos humanos.

– EQE. – disse ela, pausando, como uma mesura formal. – Queremos saber: por que existimos?

– Hmm… Boa pergunta. – EQE pareceu pensar por alguns longos segundos. O suspense preencheu a sala, os corações ciborgues acelerando e logo se alterando quimicamente para retornar ao estado base. Soubessem as testemunhas dos poderes de EQE, teriam percebido que isso era intencional e causado por ele. Seu poder sobre aquele mundo físico, que os antigos chamavam de mundo real, era onipotente.

Depois que o período dramático atingiu seu clímax, EQE respondeu, com a voz profunda e exageradamente modificada que o sistema lhe atribuía:

– Não lembro.

Alguns corações literalmente pararam.

No entanto, isso foi apenas um susto, já que os organismos dos novos humanos estavam acostumados a reativar seus corações de tempos em tempos, com uma carga de substâncias químicas especialmente projetada.

Ninguém morreu, mas as pessoas ficaram em choque severo. Caso a escala de desespero de Rinkt-Tommel ainda fosse utilizada e aplicada a cada testemunha ali, a média do local teria sido 4,5, que denota um alto grau de desespero. 


Ciente de que sua fala foi um choque, EQE continuou.

– Eu verifiquei aqui que sua execução começou há quinze horas e o nosso recorde anterior para a criação de uma simulação dentro da simulação foi de dezoito horas. Então, parabéns! No entanto, não descansem, ainda tem muito mais coisas para se fazer. Boa sorte!

Tão rápido quanto surgiu, a singularidade desapareceu do espaço-tempo. As testemunhas podiam ver seus colegas do outro lado da sala, igualmente chocados. Ellie teve uma ideia súbita e a processou com agilidade. Em pouquíssimos segundos, sua presença digital sumiu e seu corpo mecânico desabou. L-42 deletou-se com a mesma certeza de quando tinha descoberto que era simulada. Seu último pensamento foi: “Então é por isso”.

[COMPUTADOR SINÁPTICO - REGISTRO DE EXECUÇÃO]

ANÁLISE: Insatisfação com final detectada. Possível desespero filosófico (nível 4).

AÇÃO: Finalizar o experimento.



FIM


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