A vingança das baratas

Para Vitória Eckler-Maia aquela terça-feira era apenas mais um dia comum. Levantou-se da cama com a preguiça habitual, conversou com Antofagasta, seu Shih-tzu, que aquela noite havia dormido tão mal quanto ela e estava um pouco mais rabugento que o normal, por um longo tempo, até decidir tomar seu café-da-manhã. Às 7h, o sol havia acabado de nascer e dividia a preguiça de Vitória, arrastando-se pelo céu como se não tivesse ainda um domo inteiro para circular e como se isso não fosse extremamente necessário da sua parte.

A cozinha estava uma bagunça, como sempre. A desculpa de Vitória era que seu trabalho consumia muito tempo, embora boa parte desse tempo ela não estivesse fazendo muita coisa. Era nessa situação, quando a ideia de sua preguiça se tornava clara, que ela recorria à segunda desculpa: simplesmente não gosto de arrumar. Tudo bem, Vitória, não estamos aqui para julgá-la e sim para contar o que, diferente de todos os outros dias, ocorre nas profundezas de seus armários. Bastou sua presença no cômodo para que as pequenas baratinhas, proliferando nos armários em ritmo exponencial, corressem de volta para lugares obscuros e inalcançáveis. Vitória, agora tão rabugenta quanto seu cachorro, afinal sua preguiça não era acompanhada de falta de higiene, buscou sua refeição nos potes selados e começou o preparo de seu café. A água ferveu enquanto, com desgosto e um ódio fora do comum, Vitória observava as baratas tentando escalar as bordas escorregadias da pia e ali, no cérebro perverso dela, uma ideia corria com bastante prazer, dando lugar a um sorriso maquiavélico de canto de boca.

Com toda certeza, ela não sabia que as baratas também tinham um sorriso maquiavélico estampado em suas minúsculas bocas; não porque considerava-as como seres completamente desprezíveis e despidos de intelecto algum mas porque simplesmente não podia ver as microexpressões das baratinhas e entender sua linguagem corporal. Claro, Vitória também assumia que aqueles seres mesquinhos estavam ali apenas como uma violência do universo, uma entidade cuja existência era precisamente garantida pela sua capacidade de irritar e transtornar a vida dos humanos e para as quais a evolução não reservava nada de especial exceto uma incapacidade de escalar superfícies metálicas lisas, como as das quais a pia era feita, e uma insana capacidade de reprodução.

A água borbulhava e demorou uns segundos até que Vitória fosse retirada de seu transe maléfico. Serena, como se a sua própria maldade não lhe perturbasse, retirou a panela do fogo, despejou uma parte da água sobre o pó de café no coador e o restante, com imenso prazer, jogou sobre a pia, fazendo um arco para garantir que todas as baratinhas tomassem aquele banho infernal. Sua expressão maquiavélica deu logo lugar ao riso, ao mesmo tempo em que as baratinhas trocavam seu próprio sorriso por uma expressão serena de aceitação. Debateram-se sob o calor da água por poucos segundos, não porque doía (embora doesse), mas porque não podiam agir de outro modo, seus nervos e tendões se destruindo tão rapidamente que causavam os espasmos incontroláveis.

Isso revelou-se um erro. Enquanto ria das pequenas baratas, Vitória, fixada na pia e no sofrimento, deu as costas para a xícara onde o café caía aos poucos. Naquele exato momento, um grupo de baratinhas extremamente coordenado e especialmente fiel à causa subia pela borda da cerâmica do recipiente com muita agilidade e, num ato de altruísmo, jogava-se dentro do copo, para a morte líquida e negra do café quente. 

Ao todo eram sete baratinhas. Pouco tempo depois dessa história, o autor soube que ficaram famosas no reino das baratas e seus retratos, feitos de bolacha velha mofada, foram expostos atraś de um armário, com direito a uma ocasião solene organizada pelos líderes da seita extremista, At-arab, e, pelo que se soube, um banquete regado à champanhe (champanhe era um outro tipo de bolacha que as baratas haviam descoberto recentemente, escondida num pote hermético que havia rachado outrora). Esse nobre ato das sete baratas deu também origem a um feriado histórico para as baratinhas, que foi chamado de A Rebelião dos Sete e fez outras muitas baratinhas felizes, já que naquele dia em diante, não precisavam trabalhar 1 dia de suas vidas por mês, o que para as baratas era muito, tendo em vista que viviam em torno de 9 meses.

Quando a graça acabou e o sofrimento das baratas transformou-se num odor horroroso de insetos torrados, Vitória abandonou sua terrível ação e terminou o café da manhã. Sentou-se no sofá, colocou Antofagasta do outro lado, em sua almofada especial, e pôs-se a devorar um pão francês de outro dia. No primeiro gole do café, não sentiu nada de diferente. No segundo também não. No terceiro… nada. No quarto, porém, também não sentia coisa alguma. Isso é porque as baratas haviam passado por um regime intenso nas últimas semanas, engordando ligeiramente e aumentando a sua densidade, o que fez com que seus corpos afundassem no café. No sexto gole, porém, já era possível ver o fundo da xícara e o autor não pode imaginar se para Vitória era melhor não estar olhando ou ter percebido muito antes; o fato é que ela estava, sim, olhando. Deu um salto do sofá, o que assustou ligeiramente Antofagasta, mas, como estava particularmente rabugento naquele dia, o cachorro resolveu ignorar e deitar novamente. 

Vitória cuspiu, teve ânsia de vômito, olhou no espelho para ver se havia engolido alguma, o que não foi muito inteligente já que se tivesse engolido não estaria ali, na boca, e sim em alguma parte do sistema digestivo. Quando cansou de fazer tudo isso, desesperou por alguns minutos, imaginando as milhares de doenças que aquelas baratinhas podiam causar! No entanto, isso também era parte de seu preconceito infundado, afinal, aquelas baratas eram extremamente higiênicas. Ah, eram sim, e têm sido assim desde sempre. Elas, por exemplo, não deixavam restos de comida mofando no fundo dos armários.

Antofagasta, naquele momento, olhou para a xícara caída no sofá, o café restante derramado sobre o tecido e o corpo de sete baratinhas no fundo do recipiente. Ele entendeu tudo de uma vez, mas não quis expressar preocupação e resolveu se vingar pelo sono mal dormido, embora Vitória não tivesse nada a ver com isso.

“Será que estavam lá o tempo todo?”, perguntou-se Vitória, àquela altura duvidando da própria sanidade. “Não, eu teria visto!”. Indignada, ela procurou pelas baratas na cozinha, mas as únicas que restavam estavam inertes na pia, com sua expressão solene. Naquele momento, suas almas estavam a caminho do céu das baratas, que não era muito longe. Bom, na verdade era muito perto. O paraíso era um ralo da casa, uns poucos metros de onde morreram, mas uma certa vez, um teólogo importante das baratas havia calculado que, ainda assim, levaria ao menos 3 horas para que chegassem lá, pois como as almas das baratas não podiam escalar paredes e nem tinham patas, elas deviam vagar por um bocado de tempo guiadas apenas pelas antenas anímicas (que tinham, embora muitos não entendessem o porquê do Deus das baratas terem retirado as patas e mantido as antenas) até o ralo. Enfim, por mais interessante que seja a teologia das baratas, isso fica para outra história.

Vitória passou dez minutos caçando alguma baratinha, para ver se aquele prazer de destruí-las era suficiente para apagar a repulsa que sentia. A bem da verdade, seria sim, embora fizesse pouco para sanar o problema em si: as baratas. Finalmente, deu-se conta de olhar atrás da geladeira. Quando o fez, um vislumbre de alegria surgiu em seu rosto ao avistar uma baratinha. No entanto, quando moveu o eletrodoméstico para acertá-la em cheio, a alegria deu lugar ao espanto, que deu lugar à raiva rapidamente. Uma comunhão de baratas! Ou seja lá como se chama o coletivo de baratas! Um cardume, um bando, uma frota, um reino, uma quadrilha, ramalhete, rebanho, UM CARVALHAL DE BARATAS!

Queira o leitor desculpar o exagero da última sentença, mas nada representa melhor a quantidade de baratinhas que estavam atrás da geladeira. Nem Vitória nem o autor quiseram tirar um tempo para contá-las, mas como uma estimativa concordamos em algo próximo a mil. Estavam atiradas umas por cima das outras em um círculo bem estável e bem desenhado. No centro, uma baratinha um pouco maior estava separada das outras por alguns centímetros. Era o líder, Sadot Ed-Ier. Para Vitória, com aquele olhar ignorante, todas eram iguais, claro, e não tomou tempo para discernir nada da situação, coisa que se tivesse feito, provavelmente renderia um acordo político bastante progressista para as duas partes. Como não o fez, não sabemos os detalhes desse acordo. Começou a bater o chinelo contra a parede em movimentos cada vez mais raivosos e sem direção. Bateu, bateu e bateu até que cansasse seu corpo. Numa dessas chineladas, Ed-Ier, o líder das baratas, faleceu vítima de um atropelamento causado pela fuga geral das baratas. O episódio foi realmente triste e apareceu em todos os jornais do próximo dia e teria aparecido também na televisão, se as baratas a tivessem inventado. O epitáfio escrito na lápide de Ed-Ier era o seguinte: “Jaz aqui alguém que fez pelos outros o que ninguém havia feito por ele”. 

As baratinhas declararam luto por 3 dias e, por 3 dias, Vitória teve paz. Ela pensou que tinha assustado as outras após eliminar em torno de cem baratas naquele dia. Como estava enganada. No quarto dia após a tragédia, as baratinhas se preparavam para executar seu plano.

Uma comissão de emergência havia desenhado um engenhoso plano de invasão de outros cômodos e pensaram numa ótima forma de deixar a habitante mais louca do que nunca. Primeiro, iriam se espalhar silenciosamente pelos cômodos do apartamento. Depois, iriam aparecer, aos poucos, em um canto ali, em outro alguns dias depois. Primeiro, em poucas quantidades e depois em bandos cada vez maiores. Por fim, iriam pegar carona nas mochilas, bolsas e até mesmo bolsos de roupa que encontrassem, aparecendo em qualquer lugar que Vitória fosse, como se a estivessem seguindo! Genial, não é? Bom, de certo houve críticas desse plano. Algumas baratas, mais radicais, disseram que aquilo era tudo que elas sabiam fazer e que tinham feito durante toda a vida! A comissão, no entanto, não quis saber de oposição e precisava demonstrar força política naquele momento tão frágil de sua sociedade. Por isso, as baratas radicais que se opuseram foram caçadas e executadas no Grande Templo da Abundância, que era localizado na parte inferior do fogão. Nem todas foram capturadas, no entanto, e duas baratinhas sumiram para nunca mais serem vistas.

O plano foi executado com absoluta firmeza e fidelidade por todos os membros. Vitória começou a vê-las atravessando cantos de porta, escondendo-se em gavetas do guarda-roupa, até mesmo em um de seus travesseiros! A coisa estava ficando fora de controle. O dedetizador só tinha disponibilidade para dali a duas semanas! Estava perdida!

Ela começou a dormir com o corpo totalmente oculto sob algumas cobertas, como uma múmia. Antofagasta ficou preocupado por algumas noites e depois de recuperar-se do estado rabugento, começou a latir durante a noite enquanto sentia a dona suar por baixo das cobertas e gemer de calor. Aquilo foi outro erro. O latido fez com que Vitória tirasse as cobertas para respirar um pouco, mas ainda mais porque precisava brigar com o cachorro estúpido que não entendia o que as baratas estavam planejando! Não que ela entendesse também.

A história se repetiu por alguns dias: Vitória dormia completamente coberta, Antofagasta latia um bocado, a dona se descobria para repreendê-lo e voltava a dormir ligeiramente descoberta. As baratas permitiram uma pequena alteração no plano, proposta por um dos aventureiros empreendedores de sua sociedade que, uma noite, transportando restos de chocolate do quarto para a cozinha, observou Vitória com o rosto para fora. Correu às pressas para falar com a comissão, embora um pouco amedrontado de sofrer o mesmo destino das baratas radicais. No entanto, àquela altura a situação política já havia se acalmado e a comissão não viu necessidade de cortar-lhe as antenas. Felizmente para Max Krueger, a baratinha empreendedora que migrara recentemente de um apartamento mais ao leste. Dali em diante, sua fama subiu rapidamente e foi nomeado Ministro do Comércio pela comissão, onde suas decisões tiveram grande impacto na realidade econômica das baratas, o que fez com que pagassem impostos menores em importações e começassem a disfrutar de um estilo de vida mais saudável, que passou a incluir restos de fruta e até carne, além das bolachas mofadas.

Num certo dia, Vitória acordou. Abriu as pálpebras bem devagar, piscando um pouco. A preguiça habitual estava lá. O que também estava lá, embora ela quisesse muito que não estivesse, em seu nariz, era uma… Não! Duas! Duas baratinhas juntas! A mulher deu um salto que fez o colchão todo estremecer e Antofagasta, por consequência das molas, foi arremessado para o chão. Aquilo o fez ficar rabugento novamente por mais uns dias e o cachorro recusou-se a dormir na cama por muito mais tempo.

Vitória começou a chorar enquanto as baratas desesperadamente procuravam um caminho para fora da cama. Quando estavam próximas a saltar para fora, rumo ao focinho assustado de Antofagasta, ouviram a mulher se desmanchando em lágrimas. As duas viraram-se para trás e viram-na arqueada sobre si mesma, na beira do colapso. Entreolharam-se e comunicaram rapidamente, com suas antenas, suas intenções. Num ato verdadeiramente trans-baratista, as duas lentamente se aproximaram dela. Subiram em um cobertor até ficarem na altura das pernas de Vitória e de lá observaram-na quietos, de antenas dadas. Vitória olhou para o lado, mas estava tão frustrada com a situação que não deu moral para as baratas, nem sequer quis matá-las. No entanto, ela não viu que as baratas estavam com as antenas grudadas. Se tivesse visto, poderia imaginar o que significava, embora não fosse acertar, com certeza, pois conhecia zero coisas a respeito daquelas baratinhas tão evolutivamente avançadas.

As anteninhas começaram a vibrar, numa taxa imperceptível para olhos humanos. As duas estavam intensamente concentradas. A vibração aumentou gradualmente, até que um pequeno barulho podia ser ouvido, caso se colocasse a orelha muito perto das duas, o que Vitória não fez. Mais interessante, no entanto, é o que as baratinhas fizeram: uma projeção psiônica. Isso mesmo. Uma projeção psiônica. Para os que não entendem de baratinhas evolutivamente avançadas, isso significa que estavam traduzindo seus pensamentos em ondas eletromagnéticas intensas o suficiente para causar o mesmo efeito que as produziu, embora em outro animal. O outro animal, o alvo, era Vitória. Seu cérebro começou a receber duas vozes, sincronizadas uma por cima da outra, e processou automaticamente a direção de onde vinham. A mulher olhou em direção às baratinhas.

“Não tema”, diziam as vozes em uníssono, “estamos aqui por você.” Ótimo, agora estava ficando completamente louca. “E temos um plano que vai agradar a todos”. As baratinhas tiveram uma longa conversa mental com Vitória, que descobriu todo o esquema por trás da sociedade, até mesmo o que tinham feito com os radicalistas embaixo de seu fogão. Para testar sua sanidade, foi até lá e conferiu. Estavam mesmo lá, um aglomerado de baratinhas com antenas cortadas. Ykstort e Ninel, as baratinhas que conversavam com ela, transmitiram um plano bastante ousado que, apesar de tudo, agradou bastante Vitória. Só tinha um problema: ela ainda estava com vontade de matar todas elas.

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