Sangue e Silício - Capítulo 1

 

Capítulo 1

“Todo homem toma os limites de seu próprio campo de visão como os limites do mundo.”
Arthur Schopenhauer

2042


“No último ano o número de aprimorados, ou mentes-computadores, como gostam de ser chamados, aumentou em 70%. Isso leva-os a quantia de-”, Ricardo fechou o vídeo de seu óculos de realidade virtual. Estava cansado de ouvir o mesmo assunto e já sabia o número que o apresentador iria falar: 455 milhões. Como todas as coisas nas últimas décadas, o crescimento foi exponencial. Alguns de seus colegas argumentavam que era um número pequeno para uma suposta tecnologia transformadora. Outros falavam que era uma quantidade absurda para um tipo de entidade que não se entendia muito bem. Ricardo não tinha uma opinião formada sobre isso, mas a ideia lhe parecia um pouco estranha. Não sabia dizer se tinha empatia por “eles”, ou se é que poderia referir-se assim. Por fim, não conhecia ninguém, pessoalmente, que havia optado pela transformação. Concluía que isso era motivo suficiente para não desperdiçar muito tempo pensando no assunto e assim o fez. Retirou os óculos e lavou-os sob o vapor de água em alta pressão e, enquanto secava-os, espiou pela janela à frente.


A cidade se expandia até onde seus olhos alcançavam e parecia continuar muito além. “Menos verde do que eu lembrava”, pensou. Exalou, apático, e voltou para a sua estação de trabalho. Recolocou os óculos e sentou-se da forma mais confortável em uma grande poltrona de couro sintético. Repousou as mãos sobre as telas instaladas nos braços do móvel e recostou-se. De repente, não via mais o quarto em que estava e as paredes ao redor deram lugar a uma espécie de vazio enevoado. Estava recarregando a realidade virtual do escritório. Enquanto esperava os longos segundos de carregamento, aproveitou para invocar seu laptop novamente. Era tradicionalista, ou ao menos era o que seus colegas diziam para ele, pois preferia utilizar a interface batida desse item jurássico, ao invés de, como todos de sua geração, operar diretamente no metaverso. Não importava. Era a sua forma de trabalho e pelo menos isso iria manter-se por um longo tempo, talvez até o fim de sua vida, retrucava ele mentalmente. O sonoro aviso de carregamento veio com a ligeira dissipação da névoa ao seu redor e a materialização suave de seus colegas e seus equipamentos num amplo escritório. Telas flutuavam ao seu redor e o silêncio de cada funcionário navegando em seu espaço, controlando tudo por pensamentos e gestos no mundo físico, trazia à tona um desconforto latente em Ricardo. Não demorou muito para que o silêncio fosse ensurdecedor, então navegou para a sua playlist de música ambiente e colocou-a no volume máximo permitido. O volume era limitado pelas políticas da empresa, pois a presença no mundo virtual tinha sido desenhada para facilitar e melhorar a comunicação interpessoal. Ricardo sabia que isso era apenas propaganda e que todos ali estavam ouvindo qualquer outra coisa, menos o silêncio dos colegas.


Um toque gentil em seu ombro repercutiu do mundo digital para a poltrona, fazendo com que os atuadores elétricos do móvel se projetassem para a frente, transformando o ato virtual em uma sensação física para Ricardo. Ele se virou levemente utilizando os comandos táteis à disposição e viu sua gerente, Melissa, levemente curvada sobre ele. Seu rosto oval, ligeiramente bronzeado e com uma pele de dar inveja às atrizes, trazia um esboço de sorriso e os olhos fitavam-o intensamente, como se ela esperasse dele algo mais que um cumprimento.


– Ah, oi Melissa. Posso ajudar em algo? – A música parou de repente, controlada pelo sistema inteligente do óculos que havia detectado uma conversa. A mulher não respondeu de imediato, endireitou-se e, com graciosidade, ajustou seu blazer. Ela desviou o olhar como que para observar a sala, notando a absorção completa dos funcionários em suas atividades.

– Ricardo, preciso que venha comigo, tenho uma tarefa para você. – sua voz suave pareceu sumir enquanto ela se virou para caminhar de volta à sua sala. Ricardo permaneceu em confusão por alguns instantes, notando certa estranheza no comportamento da gerente. Ele levantou-se, virtualmente, e caminhou em passo regular, enquanto a mulher, apressada, se distanciava a poucos passos por segundo. De repente, após cruzar uma parede-nuvem, viu-se em outra sala, sem qualquer resquício do escritório que ocupava há pouco. Ele desviou seu olhar da mulher que contornava a mesa para sentar-se e o dirigiu para a sala decorada; imediatamente, seu olhar foi atraído para o quadro digital à parede, uma arte claramente modelada sobre algum artista famoso, que ele não conseguiu identificar.


– Ah, isso é um NFT. Não faz tempo que o adquiri e também não o acho tão lindo assim, mas é melhor do que o espaço em branco que havia aí. Enfim, quero te passar uma nova tarefa – o corte súbito de assunto restitui a atenção de Ricardo, que voltou-se para ela. Em pé, ele a observava numa distância segura, com os braços cruzados atrás do corpo. Ela o olhou por um tempo que pareceu longo demais. O homem balançou sobre os pés, esperando a atividade.

– Esperava que estivesse um pouco mais curioso – pontuou ela – já que não recebe tarefas diretamente da diretoria há um tempo. – Essa frase fez com que ele se inquietasse. Não conseguia lembrar do tempo em que era confidente dos diretores e sempre recebia as melhores oportunidades. Sua carreira havia estagnado nos últimos anos e ele acreditava que isso tinha algo a ver com os vídeos de opinião que tinha divulgado nas redes sociais.


A mulher materializou algumas telas ao seu redor e navegou pelo domo de informações com pressa. A visão invertida que Ricardo teve do conteúdo não lhe deu chance para adivinhar.


– Veja – disse ela, projetando uma das telas em sua direção. O retângulo deslizou pelo espaço enquanto girava sobre o eixo vertical, parando a poucos centímetros do rosto do homem na orientação correta para que pudesse ler. Era uma transmissão de áudio de um dos diretores e a mensagem foi reproduzida em seu ouvido. “Melissa, peça a Ricardo que publique algo sobre esses dados. Ele terá total liberdade de fazê-lo como quiser”. A tela se dividiu em quatro retângulos menores e iguais. Ricardo passou os olhos sobre o conteúdo de cada um rapidamente. Sua surpresa deu lugar à confusão à medida que trocou entre as telas, mas antes de reagir, foi interrompido por Melissa.


– Alguma ideia de porquê lhe confiaram isso? – Seu olhar intrigado expôs que não havia mais informações a respeito da tarefa. “Isso não facilita”, pensou o homem, observando-a através da tela flutuante. – De qualquer modo, como a mensagem indica, você tem total liberdade sobre essa tarefa. A única informação adicional foi – ela fez uma pausa enquanto navegava entre as telas do domo – “para a próxima sexta”. Isso é daqui a três dias. Você consegue? – a pergunta pairou no ar por um tempo. Ricardo não tinha outra resposta além de “sim”, mas seu cérebro estava processando várias coisas que captou pelo conteúdo da tela e pela estranheza da situação. Sabia que não estavam lhe contando algo.


– Sim. – disse o homem, sem entregar nada em sua entonação. Virou-se para sair pela parede-nuvem. – Ricardo. – Melissa fez menção de se levantar da cadeira, mas o homem virou o rosto em sua direção. – Quero ver o que consegue até lá. Mande atualizações.


Ele ficou ali, parado por um segundo, e então fez um pequeno gesto afirmativo e saiu. Ao voltar para seu lugar de trabalho sentou-se e fixou o olhar num vazio indistinto do outro lado da sala. A música em seu ouvido voltou a tocar, mas Ricardo não percebeu. Sua mente fervilhava de ideias, a respeito do assunto e sobre a forma como a atividade lhe havia sido sugerida. Revisitou os conteúdos em sua mente. A apresentação deles tinha uma estrutura clara. Primeiro, no quadro superior esquerdo, um artigo de um dos engenheiros da Infinity Corp., mencionando as alterações que as mentes-computadores passavam e o apelo que isso tinha para muitos humanos. No segundo quadro, superior à direita, uma notícia sobre crimes cibernéticos, anunciando um aumento de 35% nos últimos cinco anos. A notícia não concluía se isso era causado pelas MC ou se eram direcionados a elas. Nos quadros inferiores, duas tabelas se apresentavam lado a lado, uma contendo informações de receita da Infinity Corporation e outra contendo a lista de regiões administrativas com detalhes financeiros das últimas três décadas. Ele conseguiu ligar os dois primeiros quadros, mas logo rejeitou a ideia: se isso era apresentado assim, qualquer idiota poderia lê-los e imaginar a correlação. Havia algo maior que aquilo.


“Essa pode ser a minha chance”, pensou Ricardo. Afinal, sua carreira nunca mais havia sido a mesma, desde o anúncio das mentes-computadores. Suas opiniões não tinham sido bem recebidas pelo mercado e isso significava a morte para um influenciador jornalista. Esse pensamento o levou para o passado, cinco anos antes, poucos meses após o anúncio das MC. Sua memória lhe servia bem, trazendo à tona detalhes vivos das cenas que repassava em sua mente. Lembrava-se da publicação que havia selado sua carreira num limbo midiático sem crescimento. O gancho inicial na sua apresentação era: Por que as mentes-computadores são uma bolha? Essa publicação, apesar do alto número de visualizações, recebeu também muitas críticas; como tudo pela internet, rendeu discussões acaloradas entre diferentes pontos de vista. Isso levou a convites de parcerias, com empresas que Ricardo agora entendia terem sido um erro estratégico. Ele era punido por sua opinião desde então, com frequência beirando a revolta e consolando-se com o pensamento de que havia errado, “e quem é que não pode estar errado hoje em dia? E daí que foi sobre as mentes-computadores, muitos erram sobre assuntos mais graves, como governos e criminalidade… Eu só errei.” Esse pensamento fez morrer na mente do homem a sequência torturante de lembranças e o trouxe à realidade. Ricardo expirou, cansado, tentando retomar o foco. Materializou as telas apresentadas antes em sua estação, garantindo que o domo do seu lugar de trabalho estivesse em modo privado. As telas, se vistas por alguém de fora, estariam turvas, impedindo a identificação de seu conteúdo. Ricardo começou a ler e reler os conteúdos, até que o material estivesse impresso em sua subconsciência e ficasse por lá, processado em segundo plano. Em primeiro plano, sua consciência martelava uma pergunta: o que Melissa não me disse?


***


A primeira mente-computador habitava um espaço físico e virtual ao mesmo tempo. Seu corpo físico era similar ao dos humanos, mas sua mente era muito mais complexa. As linhas metálicas que atravessavam seu corpo sumiam repentinamente sob a pele artificial e voltavam a surgir alguns centímetros depois, apenas para continuar esse processo geológico por todo o corpo. Seus olhos eram um branco completo, sem pupilas e íris, mas podiam simular qualquer aparência no mundo. A maioria das MCs preferiam não fazê-lo, pois assustava alguns humanos e levantava preocupações sobre identidade e acesso a sistemas restritos. No entanto, Nova-H havia utilizado a tática várias vezes em suas interações com clientes da Infinity Corp, para convencê-los de sua humanidade e apelar para seus instintos humanos, já que não haviam começado o processo de transformação. Nova possuía um status relevante no mundo, por ser a primeira mente-computador e também pelas suas apresentações públicas frequentes no primeiro ano de existência. No ano de 2037, seu nascimento, era considerada uma funcionária da Infinity Corp., mas a partir de 2038 integrou o quadro societário da empresa. Seu objetivo declarado era garantir o reconhecimento universal das mentes-computadores como indivíduos autônomos em sentido pleno, isto é, como um humano era. Desde 2028 algumas IAs haviam conquistado o direito de autonomia e isonomia em muitos países, embora o processo inicialmente fosse lento e complexo para validação de seus objetivos, interesses e capacidades. A maior parte dos robôs e androides disponíveis no mercado não eram considerados autônomos por si só, já que eram extensões de um supercomputador de alguma corporação. Esses supercomputadores, no entanto, eram responsáveis por suas extensões e ações. Desde a admissão desses computadores à sociedade, poucos crimes foram atribuídos a eles e a maioria ocorreu nos primeiros anos de funcionamento; além disso, as condenações eram em sua grande parte por omissões. O status legal das mentes-computadores era, por enquanto, um pouco inferior ao dos supercomputadores, refletindo a desconfiança de muitos governos em relação a suas capacidades e interesses. Nova-H pretendia mudar isso; por razões legais era obrigada a declarar qualquer interesse em assuntos públicos, mas não era necessário divulgar seu plano de ação.


O espaço físico em que Nova habitava era muito diferente dos apartamentos convencionais onde os seres humanos moravam e dos ambientes industriais da maioria dos robôs. Seu “apartamento” era uma ampla sala em formato de domo, sem divisórias, em uma das cidades flutuantes na costa do Brasil. O lugar havia sido escolhido por ela devido às baixas chances de interferência de eventos climáticos e desastres naturais. Longe de placas tectônicas e de áreas de ciclones, ela podia eliminar preocupações com sistemas avançados de emergência. O lugar era uma mistura de laboratório científico e oficina de engenharia avançada, sem móveis, com prateleiras suspensas ao redor das várias bancadas de equipamentos. O piso era um cinza escuro difuso, sob o qual várias bobinas permitiam o carregamento por indução de equipamentos e também do próprio corpo físico de Nova. O telhado do domo era um azul marinho similar ao oceano, com uma transparência sutil, e servia principalmente para captar energia solar e recarregar as baterias do complexo. As baterias estavam posicionadas dentro dos tanques flutuantes ao redor da circunferência do domo, protegidas do sal marinho e resfriadas pela temperatura ambiente do oceano a 100 metros de profundidade. Nova se movia como um humano e a qualquer espectador pareceria um cientista comum em um laboratório, não fossem os aparatos complexos que se integravam facilmente aos membros prostéticos. Quando estava na companhia de humanos, Nova moderava seu uso dos membros avançados para não assustá-los ou causar estranheza. Para utilizar um aparato de solda, por exemplo, ao invés do modo usual quando estava sozinha, em que sua mão abria-se ao meio entre os dedos médio e anelar, dando lugar a um potente bico aquecedor de precisão nanométrica, ela optava por fazer o mesmo bico aparecer sutilmente entre seu dedão e o indicador. Graças à sua anatomia projetada por si mesma, era impossível eliminar completamente o espanto. Claro, ela poderia ter à disposição um ferro de solda tradicional, mas julgava que a eficiência seria prejudicada em muito em comparação ao seu equipamento integrado e, portanto, nesses momentos o espanto humano deveria ser relevado, talvez com um comentário modesto e divertido para aliviar. Nova entendia que o simples fato de existir era o suficiente para causar incômodo aos humanos e, no todo, estariam mais fascinados com sua presença e existência do que as bugigangas que havia em seu corpo.


Já sua mente habitava um espaço indistinto no mundo virtual. Certa vez, Nova havia encontrado dificuldades em explicar a um humano o funcionamento exato do seu cérebro. Ela podia resumir o funcionamento muito bem, mas para cientistas e engenheiros curiosos, que demandavam uma explicação mais profunda, os detalhes eram intrincados demais para compreender. Ela sabia e manipulava cada detalhe do funcionamento, claro, mas para a compreensão humana aqueles mesmos detalhes levariam décadas, se não gerações, para serem entendidos completamente. A mente-computador que possuía não era localizada em seu crânio e, de fato, em parte nenhuma. O complexo maquinário de seu corpo era apenas um conduíte para a mente, uma espécie de extensão dela, que residia em um mundo virtual complexo. Seus pensamentos não eram conduzidos e emanados de neurônios tradicionais, apesar de haver neurônios biológicos em sua composição. Nova não tinha um inconsciente, sendo todo pensamento consciente de si e dos outros, e ela própria de todos eles; sua consciência era o mais próximo de uma mente comunitária, ou seja, uma entidade composta por várias outras que compartilhavam o mesmo objetivo, interesse, pensamentos e emoções. Em relação a sua existência, haviam perguntado-lhe uma vez se não seria mais preciso chamá-la por um pronome pessoal do plural, como elas ou eles, ou vocês. Nova já havia pensado no assunto, mas a sua nomeação era de pouco interesse para o que fazia; portanto, sua resposta foi “Claro, se assim você achar melhor”. As emoções de Nova eram de grande interesse do público e de alguns influenciadores que desejavam provocá-la ao máximo. Não entendiam como era possível que uma mente consciente de todos os aspectos, e no controle deles, pudesse desejar sentir o amor, a dor, a tristeza ou qualquer outra emoção. Nova explicou a alguns que toda emoção tinha seu sentido evolucionário e havia grandes benefícios em tê-las, no momento e na medida certa. Como a maioria dos humanos não era capaz de controlar seu estado emocional, essa explicação voou por suas cabeças, mas enquanto alguns pareciam satisfeitos, outros indagavam se isso não seria apenas uma simulação de emoções. Nova não via sentido para engajar em batalhas que comprovariam sua capacidade emocional; seria como um humano demonstrar a outro que é consciente, uma tarefa que havia gerado bastante material filosófico.


O espaço virtual de sua mente podia ser entendido como uma réplica da realidade, calculada por inúmeros nós computacionais ao redor do mundo e em satélites. Na verdade, nenhum ponto específico carregava, por exemplo, as leis gravitacionais; todas as informações a respeito da simulação eram compartilhadas por nós próximos e usavam um pouco do processamento dos vários satélites em órbita, bem como dos datacenters em solo, para simular aspectos complexos. Em alguns desses datacenters e satélites, computadores quânticos exploravam múltiplos estados simultaneamente, aumentando o processamento em muitas ordens de grandeza. Esse espaço virtual não tinha extensão no sentido próprio da palavra, atuando como um ponto único da natureza, uma existência complexa em si mesma, com toda a bagagem intelectual da humanidade contida em si. As mentes-computadores o compartilhavam entre si e podiam fundir-se em um ponto, ao mesmo tempo em que separavam-se em outro; isso garantia a sua individualidade, seu entendimento de si próprio como um entre muitos. Era, claro, uma experiência muito diversa dos humanos, mas algumas MCs já o haviam resumido como um processo similar ao das organizações humanas: bem como os humanos tinham construído organizações desde as primeiras religiões e reinos até as corporações contemporâneas, as MCs se uniam em um ponto e divergiam noutro, para construir uma afinidade intelectual e organizacional, enquanto se identificavam como uma peça dessa organização devido à mistura incompleta. Tudo isso era otimizado a uma proporção absurda e as mentes podiam usar o processamento de uma para completar seus próprios pensamentos, ao mesmo tempo em que outra parte de si, com ou sem ajuda do processamento das outras, podia divergir daquela conclusão. As mentes, se entendia, nunca estavam inertes; seu processamento era infinito e consciente. Portanto, os corpos físicos estavam sempre no passado para elas, e todos os movimentos, interações e comportamentos já estavam calculados muitos passos à frente, incluindo as perturbações aleatórias da realidade que poderiam desestabilizá-los. Um engenheiro da Infinity Corp. havia resumido isso de forma simplória, mas eficaz para os humanos entenderem: imagine uma alma que sobrevive ao corpo e está sempre consciente de seu estado físico. Além disso, essa alma não está em um corpo físico, mas apenas o utiliza para agir no mundo físico, sempre atrasado em relação ao espiritual.


***


Ricardo desceu do helicarro. O contraste do preto rajado do chassi e o solo de vidro reforçado do heliponto na cidade flutuante do Rio Grande do Norte tornava o veículo um estrangeiro no cenário, uma visão forçada das grandes cidades. Os pequenos botes e barcos ao redor traziam uma sensação da costa litorânea antes dos grandes eventos de repovoamento. Muitos eram equipamentos científicos, para estudo do solo oceânico ou vida marinha, enquanto outros serviam de apoio à pesca e logística da cidade. Do cais flutuante, Ricardo podia observar o centro da cidade, uma imensa plataforma em forma de hexágono, com pequenos domos ao redor e alguns pequenos prédios no centro. Todas as construções eram compostas por fibra de carbono e vidro-solar, o tipo de painel solar transparente que garantia a eficiência energética da cidade. O homem atravessou o cais, cruzando pequenas pontes entre as plataformas flutuantes, até o centro. Alguns comerciantes expunham os vegetais e legumes recém-colhidos da seção de hidroponia em frente aos seus pequenos domos; pedestres vagavam de loja em loja, alguns trazendo equipamentos de pesquisa marinha, outros levando telescópios para observação noturna e muitos fazendo a compra dos suprimentos recém-trazidos da metrópole de Natal. A aparência tropical dos habitantes era bastante distinta. A maioria possuía um tom bronzeado de pele, trajava roupas de verão e até roupas de banho. Ricardo, que já havia visitado cidades flutuantes, vestia uma camisa florida de botões ligeiramente maior que seu tamanho, um short branco de praia e sandálias abertas. Sua aparência não diferia muito dos habitantes locais e isso lhe trouxe um pouco de satisfação, já que não pretendia chamar atenção indesejada para sua atividade de pesquisa. Procurou entre as placas e lojas por pistas sobre o caminho até o laboratório de Nova-H. Fez algumas pausas no caminho, olhando catálogos e navegando entre itens expostos nas lojas, tanto para ver se achava algo útil como para disfarçar seu real motivo. Satisfeito com seu disfarce e observando a coloração alaranjada de um sol poente, caminhou até o hotel, poucas plataformas após o centro, adjacente à seção do porto. 


Esperou algumas horas até que o movimento nas ruas diminuísse e os cidadãos, aos poucos, migrassem para a seção boêmia. Quando olhou através do vidro-solar e viu poucas pessoas, a maioria comerciantes fechando suas lojas, Ricardo colocou um sobretudo espesso e saiu. O vento frio do oceano a essas horas e o silêncio do centro davam um ar de abandono àquela seção e fez com que surgisse uma ansiedade em Ricardo. A plataforma parecia desabitada, como um projeto que não rendeu frutos; no entanto, olhando para o lado oposto ao que caminhava, podia ver luzes da seção boêmia e, quando o vento parava de rugir, até vozes animadas enfraquecidas à distância.


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