Sangue e Silício - Prólogo
Prólogo
2037
– A ciência e a engenharia deste século têm demonstrado que não há limites para o que podemos atingir. Tudo se torna possível, uma vez que não desafie as leis primordiais da física e todo o restante torna-se questão de custo. A pergunta que dita a nossa era já não é mais a do século vinte: será? Hoje nos perguntamos: quando?
O auditório estava calado, apesar das dez mil pessoas, celulares e laptops distribuídos no interior. A iluminação fraca e branca de um holofote de teto espalhava sobre o palco uma aura de elegância, modernidade e importância. No centro do cilindro de luz, uma mulher de terno cinza claro assemelhava-se a um monólito, que sempre esteve ali. Sua voz séria ecoava através do salão, amplificada por uma rede de alto-falantes estrategicamente posicionados. Atrás dela, uma grande tela ocasionalmente brilhava em padrões irregulares, como se um vagalume de luz branca desfocada percorresse entre os LEDs de alta intensidade.
– Até o dia de hoje outra pergunta sempre pairou em nossas mentes: será que conseguiremos isso antes das nossas queridas IAs? E em torno disso temos vivido os últimos anos, constantemente relembrados pelo semblante metálico de nossos parceiros artificiais. Muitos de nós vivem com medo, ou ao menos em suspense, de que um dia seremos substituídos e nunca mais encontraremos um lugar para nós na sociedade. Isso definiu o cenário político e empresarial atual.
– Mas nós, da Infinity Corporation, resolvemos olhar as coisas de outro modo. Jogamos fora o “nós” e o “eles”, o medo, as crises e tudo o mais que se deriva disso. Nós olhamos para uma oportunidade.
Aos poucos, o vagalume desfocado da tela parecia um pouco mais rápido e um pouco mais organizado. Parecia ter encontrado uma rota circular para fora da tela, de forma que os espectadores só viam um quarto de seu percurso normal, como um quadrante da trigonometria bastante instável. Seu trajeto não era exatamente curvo, mas dava à imaginação a visão perfeita de uma curva.
– O que nós descobrimos é que é possível a convivência. E mais, descobrimos que ela é necessária. Resolvemos eliminar o medo da obsolescência. Focamos nas capacidades de melhoria. Isso todos vocês sabem. – Seu gesto amplo para o auditório, em arco, pareceu levantar um pouco da tensão no salão, fazendo com que alguns espectadores se mexessem em suas cadeiras – O que vocês NÃO sabem, e o que eu vim para contá-los hoje, afinal… É que nós descobrimos o futuro da humanidade. – Uns poucos flashes dispararam no instante preciso do fim da frase e o vagalume desfocado pareceu diminuir em tamanho na tela, enquanto seu trajeto se tornava mais visível.
– Esse futuro não é nosso, no sentido da humanidade. E também não é das IAs. Esse futuro não tem algo a que pertencer… ainda. O que surgirá, a partir de hoje, seja o que for, tenha a forma que tiver, será dono desse futuro. E nós, IAs e pessoas, nos elevaremos para esse patamar, para a próxima geração…
– Esse futuro pertence às mentes-computadores – entidades que transcendem a divisão entre humanos e IAs. Com elas não apenas coexistiremos; nos tornaremos algo único, novo e melhor.
De repente, o cilindro de luz desapareceu e a tela preta mostrou o vagalume desfocado em sua trajetória circular completa, com uma vibração aparente e irregular. Sua velocidade aumentou rapidamente, e a cada volta completa, quando atingia o topo da tela, se transformava num fraco pulso de luz branca da tela, como se o vagalume estivesse contando as voltas. Quando sua velocidade atingiu o máximo, não se distinguia o vagalume de sua trajetória, e o pulsar da luz era quase luz constante para os olhos humanos. Por fim, uma explosão de partículas emanou da tela e inundou o salão. A tecnologia de tela tridimensional proporcionava uma experiência imersiva para todos os ocupantes, independente de sua posição na sala. As partículas pareciam pequenas estrelas, flutuando como poeira, e a trajetória do vagalume havia se transformado em uma esfera poucos centímetros à frente da tela. Um padrão de curvas ao redor da esfera mostrava que o vagalume ainda estava lá, embora em todos os pontos ao mesmo tempo. Nenhum telespectador poderia estar preparado para o que viria a seguir: uma voz limpa, calma e suave, que cumprimentou a todos dizendo “Olá”, seguido do nome de cada um, parecendo emanar do éter da realidade.
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